Passada uma semana da eleição mais disputada da história de Ponta Grossa, o prefeito eleito com 50,48% (88.611 mil votos), Marcelo Rangel (PPS), concede à reportagem do Jornal da Manhã uma entrevista exclusiva, pela qual o novo administrador municipal promete lançar o ‘Cartão Transporte’ até o segundo semestre de 2013 e contratar médicos para implantar de imediato o atendimento em regime de plantão nas unidades de saúde.
Rangel também comenta a estratégia de campanha e as críticas à administração de Péricles de Mello (PT), concorrente na disputa à Prefeitura, e que já governou Ponta Grossa entre 2001 e 2004. “Nós fizemos isso da maneira mais correta politicamente falando”, avalia.
O novo prefeito acredita que o governador Beto Richa (PSDB) dará prioridade a Ponta Grossa devido às derrotas em outras grandes cidades do Estado e afirma que vai transformar a Prefeitura em uma “grande usina de bons projetos” para contar também com o apoio do governo federal. Confira abaixo os principais trechos da entrevista exclusiva com Marcelo Rangel. A íntegra da reportagem está disponível no portal JMNews.
JORNAL DA MANHÃ: Prefeito, vamos começar por um dos seus atuais ambientes de trabalho. O senhor vai conciliar a Prefeitura com a rádio?
MARCELO RANGEL: Talvez eu não consiga estar na rádio todos os dias, mas eu pretendo continuar fazendo este trabalho porque eu acho importante as pessoas terem contato com o prefeito e eu poder escutá-las. Vou colocar muitos ouvintes no ar, para falar sobre os problemas nos bairros e nas comunidades.
JM: Pretende fazer do rádio quase uma ouvidoria?
MARCELO RANGEL: Sem dúvida. É isso mesmo! Porque o rádio é assim mesmo. Esse contato próximo é muito interessante. As pessoas querem ter um contato mais íntimo com o prefeito e eu acho que através do rádio a gente pode continuar esse vínculo.
JM: Agora passada a eleição, como o senhor avalia a campanha?
MARCELO: A disputa enriquece as propostas, as ideias e o bom debate. Eu acabei aprendendo muito com essa campanha. Foi uma campanha de muita cobrança para os candidatos. Eu fui muito cobrado, principalmente, em relação aos debates, as entrevistas e também nas reuniões com a sociedade organizada. Eu tive reuniões com praticamente todos os setores que representam secretarias do município, com entidades, em associações e nos bairros, ouvindo as pessoas e também recebendo os reclames e as cobranças. Isso acabou me ilustrando muito e hoje eu me sinto muito mais preparado para exercer o cargo de prefeito justamente por ter passado por uma campanha tão difícil como essa.
JM: Qual foi o momento mais difícil da campanha?
MARCELO: Durante todo o processo nos tivemos momentos de muito estudo, de mudanças de estratégias, debatendo as propostas que tiveram melhor aceitação pública, mas eu acredito que o segundo turno foi muito mais emblemático. A partir do momento que nós recebemos a pesquisa do Ibope que não condizia com a verdade, sentimos que houve uma mudança, inclusive, no posicionamento do eleitorado. A campanha se tornou muito mais difícil, porque quando saiu o Ibope com 49% [Péricles] a 40% [Marcelo], com nove pontos de diferença, aquilo naquele momento não condizia com a verdade. As nossas pesquisas mostravam completamente ao contrário, mostravam que nós estávamos na frente. Aquilo tornou a eleição bastante difícil, porque o eleitorado acabou comprando a ideia. O candidato Péricles subiu e eu caí em virtude da pesquisa. Ficou muito justa a diferença e durante a semana nos notávamos que estávamos muito próximos um do outro, mas em nenhum momento em nossas pesquisas nós ficamos atrás do outro concorrente.
JM: Como se deu a decisão de começar a criticar o Péricles, lembrando da administração dele entre 2001 a 2004?
MARCELO: No segundo turno é preciso estabelecer diferenças. O eleitor precisa conhecer o seu candidato, inclusive, pelas suas diferenças administrativas, de personalidade e de ideologia. Então, eu tomei a decisão de que precisávamos também falar um pouco sobre a administração passada [do Péricles], sobre os erros que aconteceram e sobre o meu desempenho na Assembleia Legislativa que era diferente do meu adversário. Meu desempenho como deputado foi muito mais produtivo. Eu achava que isso precisava ser demonstrado, que a população precisava saber que estaria escolhendo um candidato com uma personalidade e um estilo de trabalho diferente. No debate isso ficou mais evidenciado ainda porque eu usei um estilo mais firme, com maior personalidade, para demonstrar que eu tinha mais vontade e, acima de tudo, por eu ter a primeira oportunidade de mostrar o meu trabalho e pelo fato do meu concorrente já ter sido prefeito e ter errado em muitas áreas. Esses erros as pessoas não lembravam mais.
JM: A postura que o senhor escolheu assumir no debate foi decisiva?
MARCELO: Eu acredito que sim. Numa campanha que se decide por 1,6 mil votos, tudo é importante. Desde uma carreata, uma reunião, um apoio, tudo acaba fazendo a diferença no final da eleição, porém o que mais vai ficar evidenciado para os eleitores é o debate que, segundo as pesquisas, nós fomos mais firmes e os eleitores ponta-grossense creditaram a nós um melhor posicionamento.
JM: Se tivesse que apontar o mérito da campanha para ter saído vencedor, qual seria?
MARCELO: É uma soma de coisas e eu seria até injusto se apontasse só uma. A escolha do meu vice foi fundamental, o empenho do Sandro Alex [deputado federal (PPS)] foi fundamental, principalmente na televisão. Ele foi o meu coordenador de campanha. O apoio do deputado Plauto [Miró (DEM)] também foi fundamental, porque toda a estratégia de campo também era coordenada pela equipe dele. A adoção da nossa estratégia de campanha do resgate do amor pela cidade de Ponta Grossa, as crianças que se envolveram também, fazendo o símbolo [coração] e o nosso programa de TV, que sempre foi considerado o melhor por todas as pesquisas qualitativas, também foram fundamentais. Então, realmente é um conjunto de vários fatores que levaram a essa vitória. A popularidade que nós temos através do rádio, a popularidade que o Dr. Zeca tem através da medicina, os nossos apoiadores que deram suporte... A nossa campanha era a campanha que tinha os menores recursos entre os três, por incrível que possa parecer. Menos que a do Márcio [Pauliki (PDT)], menos que a do Péricles, que contou com os recursos vindos do próprio Partido dos Trabalhadores (PT). Então, nós tínhamos recursos menores, mas sabíamos melhor administrá-los e isso contou muito também para que conseguíssemos chegar a essa vitória.
JM: A disputa no segundo turno focou bastante os votos do Pauliki, já que no primeiro turno ele fez mais de 53 mil votos. Como que o senhor analisava esta situação?
MARCELO: Por ele não ser político, no primeiro momento, acabou também recebendo muitos votos daquelas pessoas que estavam decepcionadas com política, como aconteceu em todo o Brasil. Muitos eleitores buscaram uma alternativa e ele foi a alternativa, no primeiro momento. No segundo turno, me parece que o envolvimento da vice [Leontina Stadler (PMDB)] demonstrou que o grupo dele estava mais ligado ao candidato Péricles. Muitos que estavam junto a ele [Pauliki] apoiaram o Péricles. Então, eu vejo da seguinte maneira. Foi bom para o debate, mas de qualquer maneira mudou o perfil da eleição pelos ataques que eu sofri no primeiro turno com jornais e a panfletos apócrifos, mudando o perfil da eleição no primeiro turno e deixando a eleição mais acirrada e mais disputada.
JM: Como funcionou a escolha das táticas de campanha, não utilizando muito o mensalão, mas indo ao ataque...?
MARCELO: Eu sempre tive uma opinião de que tudo que foi falado sobre o mensalão ficou muito claro nos meios de comunicação e todo mundo sabia que o mensalão envolvia o PT e pessoas que tinham um envolvimento partidário com o candidato [Péricles]. Isso era evidente, então não adiantava eu levar para um programa eleitoral algo que todo mundo já sabia, mas se a população não ‘linkou’ isso ao candidato, não seria eu quem iria forçaria isso. Então, eu resolvi não utilizar essa questão. Eu acho que nós tínhamos que trabalhar mais numa diferença administrativa porque no passado a população não aprovou a administração do PT em Ponta Grossa e isso acabou sendo esquecido por grande parte da população. Então, nós tínhamos que demonstrar porque grande parte da população no passado não aprovou e optou pela candidatura do Pedro Wosgrau [quando Péricles tentou a reeleição em 2004]. Tínhamos problemas na saúde, com os servidores públicos, a cidade estagnou com relação ao processo industrial, enfim, isso precisava ser mostrado de uma forma, extremante serena, com responsabilidade, sem nenhum tipo de ataque vil, e nós fizemos isso da maneira mais correta politicamente falando.
JM: Quais são as prioridades para quando assumir a Prefeitura?
MARCELO: O início é a contratação de mais médicos, o trabalho com os CAS em horário estendido. Eu estarei pessoalmente visitando as unidades de saúde já no início do meu mandato para acompanhar os problemas de fila e de falta de atendimento. Eu e o meu vice, o Dr. Zeca, já estabelecemos um acordo de mutirão para trabalhar nessa área de saúde, que é o problema mais grave hoje na cidade de Ponta Grossa e eu também estou solicitando um acréscimo no orçamento para obras de infraestrutura, porque nos precisamos investir em pavimentação. O meu programa é ousado, mas factível, e nós temos que iniciar já com este trabalho, com parceria com o governo do estado e também em infraestrutura ambiental.
JM: Dá para ter uma noção de quantos médicos precisam ser contratados no começo do governo para tenta amenizar esse problema?
MARCELO: É difícil dizer um número para solucionar o problema, porque nós precisamos ter uma avaliação da saúde financeira do município por completo. Hoje é investido de 19 a 20% do orçamento na saúde, que já é um bom número, só que me parece que a gestão disso tudo ainda tem alguns problemas e por isso que nós precisamos organizar o que já temos e fazer investimento pelo menos nos CAS e em algumas unidades de saúde que estão mais vulneráveis e onde as filas são maiores. Queremos iniciar o que nós oferecemos como proposta que são os plantonistas. Através dos plantonistas depois das 18h, nós vamos começar a regular a demanda, só que isso passa por licitação e demora certo tempo. Então, o que nós queremos nesse momento é aumentar a participação da FAUEPG para que possamos contratar mais médicos para os CAS [Centro de Atenção à Saúde] e trazer mais médicos para fazer este trabalho nos postos.
JM: Na primeira conversa com o prefeito Pedro Wosgrau Filho (PSDB), o senhor sentiu que será uma transição tranquila ou haverá entraves, até por conta de uma disputa anterior na eleição passada [quando Wosgrau disputou contra Sandro Alex]?
MARCELO: Olha! Nós temos perfis completamente diferentes e na nossa primeira conversa isso ficou bastante evidenciado, mas eu trabalho com muito respeito a tudo aquilo que se constroi, tudo aquilo que é realizado. Nesse primeiro momento, eu acredito que a transição está ocorrendo de maneira extremamente tranquila. Solicitei alguns ajustes [no orçamento] ao prefeito. Eu gostaria que neste momento cessassem, por exemplo, algumas ideias que ele cogitou. Eu gostaria que ele deixasse isso para o ano que vem, mesmo porque, nós temos que trabalhar já com a administração nova, com todos os secretários de acordo, então fazer isso nos dois últimos meses, não me parece ser o correto, com relação à nomeação de médicos e PSF. Eu acho que temos que deixar para janeiro e fevereiro. Com relação ao transporte, também solicitei a ele que não mexa nesse contrato até o final do ano, porque no ano que vem pode acontecer a renovação e nós temos que avaliar se a empresa cumpriu realmente com todos os detalhes estabelecidos no contrato. É importante dizer que esta renovação é praticamente de maneira automática. Os detalhes que estão ali no contrato são muito amplos. É preciso cumprir alguns objetivos, mas são objetivos muito vagos. Na Justiça, eles poderiam ser questionados, mas certamente a empresa também teria argumentos dizendo que cumpriu. O que nós precisamos fazer são uma consulta pública e cobrança e fiscalização. Se o contrato for renovado automaticamente, que a fiscalização e os investimentos na qualidade do serviço sejam colocados imediatamente em prática.
JM: Por causa deste entrave em relação ao transporte, como o senhor vê a viabilidade da proposta do Cartão Transporte. Ela é possível?
MARCELO: Ela é possível e eu acredito que nós vamos fazer no ano que vem, porque a estrutura já tem. A questão do cartão eletrônico já é possível, o conselho municipal de transporte já tem a proposta toda formatada e já passou pela análise dos técnicos. Existe a viabilidade, não existe nenhum tipo de impacto no IPK [Índice de Passageiros por Km rodado], basta apenas saber se nós vamos conseguir fazer algum tipo de reformulação neste contrato. Se não houver nenhuma reformulação, nós vamos implantar até o segundo semestre do ano que vem.
JM: Não vai precisar de subsídio da Prefeitura?
MARCELO: Em hipótese nenhuma. Não se cogita nenhum tipo de subsídio.
JM: O senhor teme dificuldades por ter um orçamento que não vai ser o senhor que vai planejá-lo?
MARCELO: Temo, temo dificuldades, sim, principalmente porque a Prefeitura tem uma divida muito grande, mais de R$ 200 milhões. Tenho uma responsabilidade fiscal a ser cumprida e com os servidores públicos nós estamos chegando ao limite e isso tem que ser avaliado. Tenho alguns receios nesse sentido com relação à peça orçamentária. Eu pedi aos vereadores um tempo para que a gente possa fazer algumas alterações. Como nós temos algumas prioridades muito fortes na nossa comunidade, que é a questão da saúde e também com relação ao trânsito, infraestrutura e planejamento, nós vamos focar nessas áreas, mas sem esquecer esporte e lazer. Então, eu pedi também para que a gente pudesse fazer um investimento maior, principalmente, com relação a campos e com a possibilidade de já iniciar o trabalho investindo em parques.
JM: Apoio do legislativo. Como que o senhor está vendo a eleição da Mesa no dia 01 de janeiro?
MARCELO: Eu estou realmente muito satisfeito com a participação dos vereadores eleitos já colaborando com sugestões, boas ideias e efetivamente com a administração pública. Nós temos 12 vereadores eleitos da nossa coligação, mas também estamos conversando com os outros vereadores que já demonstraram simpatia ao nosso governo e acredito que nós podemos avançar no sentido de termos mais vereadores na situação e isso vai ser importante para o início do governo. Ter o apoio da Câmara é fundamental. Não estou me envolvendo, neste momento, na eleição da Câmara. Já está caminhando naturalmente, porque existe um bloco de 12 que são muito unidos, muito amigos, e eu estou apenas acompanhando. Acho que vamos ter uma eleição tranquila e a participação no Poder Legislativo é fundamental para que possamos aprovar esses projetos de início de gestão.
JM: Há nomes dentro do Legislativo que possam contribuir no Executivo?
MARCELO: Isso precisa ser discutido. Existem, sim. Existem bons nomes. Todos que foram aprovados pela população através do voto são pessoas que já receberam aval dos ponta-grossenses para assumirem responsabilidades na administração pública. Para escolher um secretário, ele precisa ser técnico, entender da área, mas também ter responsabilidade política e ser aprovado pela população. Os vereadores, no caso, já têm também a aprovação da população, mas isso precisa ser debatido também com os próprios vereadores, porque numa Câmara muito rica em sua diversidade depende muito do vereador querer sair do Legislativo para ocupar uma vaga no Poder Executivo.
JM: Ponta Grossa pode ser priorizada pelo governo estadual por causa da derrota que o governador Beto Richa (PSDB) teve um Curitiba. Esta relação pode ficar mais forte por conta dessas conjunturas?
MARCELO: Eu não tenho dúvida de que a relação do governo do Estado com Ponta Grossa ficará ainda mais forte. Primeiro porque o Beto participou do meu plano de governo. Nós fizemos muitas propostas juntos, principalmente, com relação ao PAI, que é o programa de Pronto Atendimento Infantil, ao Centro de Especialidades e para a capacitação dos jovens, então, tudo isso foi estudado em conjunto com o governador. O fato de Ponta Grossa ter tido uma vitória para o governo e ser uma cidade importante para o Estado acaba fortalecendo este vínculo. Em Curitiba não houve a vitória do vereador e em Londrina também. Mesmo o candidato lá em Londrina tendo uma boa relação com o governador, ele estava na oposição. Então isso acaba fortalecendo este vínculo de parceria e isso vai ser importante para a cidade de Ponta Grossa, não tenho dúvidas.
JM: E relação com o governo federal, como que o senhor vê?
MARCELO: Eu vejo que nós teremos, sim, o apoio do governo federal, porque nós temos um representante [Sandro Alex] em Brasília que já está mantendo contato com os ministros que estiveram aqui em Ponta Grossa e com a ministra-chefe [Gleisi Hoffmann (PT)] e tem o respeito do congresso por ser um deputado muito aguerrido e ter se destacado já no primeiro ano. Como ele é o nosso representante, acho que esse elo vai ser bastante importante. E a Prefeitura será uma grande usina de bons projetos. Quando se apresenta projetos importantes, os recursos federais automaticamente são liberados porque há a necessidade do governo federal investir em bons projetos. Então, a diferença da nossa administração será nesse sentido. Nós teremos um departamento para a produção de bons projetos em todas as áreas e tendo um deputado federal que cobre realmente o cumprimento das propostas e, principalmente, dos ministérios, eu acho que nós vamos avançar muito nisso.
JM: O prefeito eleito em Ponta Grossa, geralmente, se torna um líder regional. O PPS, partido do senhor, conseguiu cinco prefeituras na região. Como que o senhor está vendo essa inserção regional por conta do partido e por ser o futuro líder de Ponta Grossa?
MARCELO: O partido realmente se engrandeceu com essas conquistas, principalmente com relação a Telêmaco [Borba] e Castro. E eu acho que a AMCG [Associação dos Municípios dos Campos Gerais] vai se fortalecer. Ainda não sei bem ao certo como se dará a composição da diretoria, principalmente, com relação à eleição. Respeitando os outros prefeitos da região, se houver a possibilidade também estarei me candidatando a presidência da AMCG. Ainda não formatei essa ideia, mas Ponta Grossa, realmente, é o grande centro, o grande polo da região. Se os outros prefeitos do PPS tiverem essa vontade de que eu esteja à frente, eu estarei à disposição.
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