domingo, 25 de novembro de 2012

Münchenfest: uma pretensa tradição

Em épocas de Münchenfest, como a que vem chegando, é inevitável a reflexão sobre as pseudo-tradições ponta-grossenses que afloram concomitantes à festa.
Em A invenção das tradições (Hobsbawm, Ranger, 1997.) Eric Hobsbawm estabelece a diferença entre tradição inventada, tradição genuína e costumes. A primeira constitui-se de um conjunto de ritos de natureza simbólica que se estabelece pela repetição visando uma continuidade com o passado. A segunda também, mas com a diferença de que tem sua origem indefinível no tempo. Já os costumes são formados por práticas sociais que podem se inovar, mantendo vínculo de permanência com o antecedente, mas sem consolidação de um aparato simbólico ou ideológico.
Em Ponta Grossa, tem-se o costume de todo ano realizar uma festa que tenta incutir, insatisfatoriamente, uma tradição germânica inventada para a mesma.
É fato que não houve exclusividade da imigração alemã na cidade. É claro que ela aconteceu e foi expressiva, mas ela foi tão significativa (e não mais significativa) quanto as de outras etnias, como a dos poloneses, por exemplo. Por isso, é improvável conceber a festa, que tenta ser de tradição unicamente alemã, como genuinamente tradicional da região.
É claro que não é necessária uma veemente descendência na cidade para se ter uma festa de tradição alemã. Contudo, é difícil identificá-la também como a invenção de uma tradição. Os elementos simbólicos utilizados para caracterizar a festa como tradicional alemã não conseguem por si só lhe sustentar essa identidade. As dancinhas e os floridos vestidos das sorridentes candidatas à rainha e as bandinhas, cujos integrantes usam suspensórios e calções verdes, (e quem frequenta o pavilhão nas noites de festa sabe que além de algumas músicas de cunho germânico elas tocam também samba, pagode, pop etc.), são alguns dos rituais simbólicos utilizados para dar o clima germânico à folia, mas que sucumbem frente ao frenesi que gira em torno dos mega shows de artistas de fama nacional. No ano passado, por exemplo, não havia um adorno na cidade que fizesse referência a um evento de cunho alemão acontecendo em Ponta Grossa, e quase todo o material de divulgação da festa fazia alusão aos shows que estariam ocorrendo. Isso porque os organizadores precisam atrair público para o centro eventos (um espaço distante do centro urbano), e é natural que foquem o material de marketing nos principais atrativos da München, ou seja, os shows.
Outros pequenos detalhes também desfiguram a festa de sua pretensa identidade. Experimentem comer um chucrute na München. Até se pode encontrá-lo, escondido em algum restaurante dentro do centro de eventos. Mas é mais fácil, e é também economicamente mais viável, deliciar-se de um X-pernil (desses vendidos em vários trailers pela cidade).
Alguns conterrâneos se referem de forma nostálgica às primeiras edições da festa, conforme idealizada e realizada por Jan Strassburger (particularmente, o autor desse texto não viveu esses momentos para comparar e opinar). Mas, segundo Hobsbawm, os costumes têm como característica irem se renovando, mantendo vínculos apenas com o momento antecessor, não com a história ou com o passado.
Por esses motivos, a Münchenfest caracteriza-se mais como um costume do que como uma tradição, seguindo, é claro, as conceitualizações de Hobsbawm.
Por fim, salienta-se que esse texto não é uma crítica e, por esse mesmo motivo, não apresenta sugestões, mas apenas uma reflexão sobre as questões identitárias da Münchenfest. Afinal, é uma festa, e o que realmente importa não são as questões de tradições que giram em torno dela, mas que as pessoas possam se divertir com seus amigos ou com suas famílias, com segurança, uma boa estrutura e um preço acessível.
Jeverson Nascimento - jeversonnascimento@gmail.com
(http://www.jmnews.com.br/noticias/ponta%20grossa/42,27392,21,11,munchenfest:-uma-pretensa-tradicao.shtml)

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