Em épocas de Münchenfest, como a que vem chegando, é inevitável a reflexão
sobre as pseudo-tradições ponta-grossenses que afloram concomitantes à
festa.
Em A invenção das tradições (Hobsbawm, Ranger, 1997.) Eric Hobsbawm
estabelece a diferença entre tradição inventada, tradição genuína e costumes. A
primeira constitui-se de um conjunto de ritos de natureza simbólica que se
estabelece pela repetição visando uma continuidade com o passado. A segunda
também, mas com a diferença de que tem sua origem indefinível no tempo. Já os
costumes são formados por práticas sociais que podem se inovar, mantendo vínculo
de permanência com o antecedente, mas sem consolidação de um aparato simbólico
ou ideológico.
Em Ponta Grossa, tem-se o costume de todo ano realizar uma
festa que tenta incutir, insatisfatoriamente, uma tradição germânica inventada
para a mesma.
É fato que não houve exclusividade da imigração alemã na
cidade. É claro que ela aconteceu e foi expressiva, mas ela foi tão
significativa (e não mais significativa) quanto as de outras etnias, como a dos
poloneses, por exemplo. Por isso, é improvável conceber a festa, que tenta ser
de tradição unicamente alemã, como genuinamente tradicional da região.
É
claro que não é necessária uma veemente descendência na cidade para se ter uma
festa de tradição alemã. Contudo, é difícil identificá-la também como a invenção
de uma tradição. Os elementos simbólicos utilizados para caracterizar a festa
como tradicional alemã não conseguem por si só lhe sustentar essa identidade. As
dancinhas e os floridos vestidos das sorridentes candidatas à rainha e as
bandinhas, cujos integrantes usam suspensórios e calções verdes, (e quem
frequenta o pavilhão nas noites de festa sabe que além de algumas músicas de
cunho germânico elas tocam também samba, pagode, pop etc.), são alguns dos
rituais simbólicos utilizados para dar o clima germânico à folia, mas que
sucumbem frente ao frenesi que gira em torno dos mega shows de artistas de fama
nacional. No ano passado, por exemplo, não havia um adorno na cidade que fizesse
referência a um evento de cunho alemão acontecendo em Ponta Grossa, e quase todo
o material de divulgação da festa fazia alusão aos shows que estariam ocorrendo.
Isso porque os organizadores precisam atrair público para o centro eventos (um
espaço distante do centro urbano), e é natural que foquem o material de
marketing nos principais atrativos da München, ou seja, os shows.
Outros
pequenos detalhes também desfiguram a festa de sua pretensa identidade.
Experimentem comer um chucrute na München. Até se pode encontrá-lo, escondido em
algum restaurante dentro do centro de eventos. Mas é mais fácil, e é também
economicamente mais viável, deliciar-se de um X-pernil (desses vendidos em
vários trailers pela cidade).
Alguns conterrâneos se referem de forma
nostálgica às primeiras edições da festa, conforme idealizada e realizada por
Jan Strassburger (particularmente, o autor desse texto não viveu esses momentos
para comparar e opinar). Mas, segundo Hobsbawm, os costumes têm como
característica irem se renovando, mantendo vínculos apenas com o momento
antecessor, não com a história ou com o passado.
Por esses motivos, a
Münchenfest caracteriza-se mais como um costume do que como uma tradição,
seguindo, é claro, as conceitualizações de Hobsbawm.
Por fim, salienta-se que
esse texto não é uma crítica e, por esse mesmo motivo, não apresenta sugestões,
mas apenas uma reflexão sobre as questões identitárias da Münchenfest. Afinal, é
uma festa, e o que realmente importa não são as questões de tradições que giram
em torno dela, mas que as pessoas possam se divertir com seus amigos ou com suas
famílias, com segurança, uma boa estrutura e um preço acessível.
Jeverson Nascimento - jeversonnascimento@gmail.com
(http://www.jmnews.com.br/noticias/ponta%20grossa/42,27392,21,11,munchenfest:-uma-pretensa-tradicao.shtml)
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