sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

 

MARIA BUENO


Com olhos rasos de interesse, Curitiba vem assistindo ao “fiat” de uma Santa, isto é, a metamorfose em Santa de uma pobre mulher assassinada.

A canonização popular não se delonga, porém, na tartaruguice da outra; é mesmo mais expedita que a equipolente do ritual eclesiástico, faz justiça á moderua: encurta os largos prasos intelocutórios e salta os degráos hierarquicos conducentes ao definitivo incenso no radioso nicho.

Rapido o processo agiologico de Maria Bueno. Na caligem de torva noite de Janeiro de 93 a infeliz tombou quasi degolada, a punhal, pelo sinistro amasio, soldado de cavalaria. Dentro em pouco apareceu a luz de pelejante vela no baldio, que fôra palco da tragédia, na Rua Campos Geraes, ora Avenida Vicente Machado. Preito de saudade de algum parente, de alguma sócia de boemia ou desobriga da primeira promessa? Seguiram-se outros cirios, saudosos ou votivos, já agora acompanhados de flores naturaes e de artificio, modestas corôas de papel. Joelhos em terra companheiras da assassinada, em compungida prece.

O numero foi crescendo e com variações epidermicas: não mais só mulatos e pretos, também brancos e louros. Homens e mulheres.

No “Sistema dos Mitos” assevera Oliveira Martins que “por toda a parte são as mulheres as depositarias das superstições”. É querer eximir o sexo forte de uma fraqueza, em que da mesm’arte incorre. O mausoléo de Maria Bueno foi paga de milagre financeiro; o comerciante, assim pontual nos compromissos, haveria talvez de safar-se da borrasca da falência por força da própria correção, sem adjutorio extra-terreno. Os menos apulentos saldam os debitos com toscos ex-votos, rôxas palmas de glicinias; ramalhetes pobres; de preferencia velas e tantas são que o tumulo e adjacencias resplandecem em luminaria, perene como a pira das Vestaes. A crendice, porem, não se contenta: ha fitas baratas e ricas com franjas de ouro, papeluchos com gatafunhos, cartões de agradecimento, bilhetes a lapis, mão tremula no marmore funebre…

“Obrigada, ele já voltou”

_ “Santa Maria Bueno faças que minha ferida feche-se. Salve rainha Mãe de misericordia”…

Ao lado triste portadora de cancer entrega-se à miraculosa terapeuta prometendo um rosario, isto é, nada menos de 15 padres-nossos, e 150 ave-marias. “Fazei que me case com a pessoa que mais amo no mundo”. Outra pede, aflita: “Tenho fé. Que meu marido viva comigo”. Alem: “Ponho a Zizi sob vossa proteção”. En fim, inumeras suplicas relativamente aos mais variados interesses. Até estudantes! “Fazei que eu passe no exame, que acendo uma vela”. Predomina, porém, o peditorio sobre assunto de amores. Deve ser a especialidade da santa. Decoram o mausoléo duzias e duzias de placas de marmore com agradecimentos, anonimosou com iniciaes.

Pouco se lhe dá, ao beaterio maribuenense, a objurgatoria da Egreja ou que Santo Agostinho, fosse desentusiasta do cultodos mortos, com a intolerancia: “se eles viveram mal, quem quer que seja, não deve ser adorado”. A decaída apunhalada continua, entanto, objeto de adoração fetequista. Não preocupa a cohorte dos seus fieis que S. Gregorio Nazianzeno duvidasse as almas, mesmo as santas, “pudessem ouvir estas coisas”, as suplicas dos vivos, ou que teologos e exegetas, saturados das Escrituras, afirmem que os anjos e os santos não são intermediários junto de Cristo; a santa Maria Bueno permenace inacessível em seu supersticioso altar. Mas, enfim, que fez ela para que a veneração animista da arraia social se dilatasse, subindo em halo, até contagiar as camadas superiores?

Sabe-lo-iamos se a canonisação fosse catolica, em cujo processo há sobre a vida do candidato esmerilhador debate entre o Advogado de Deus, procurador da Sacra Congregação, e o promotor Advogado do Diabo.

Sabe-se ao certo que Maria Bueno, filiação desconhecida (pelo menos de Antonio José Gomes que fez as declarações no Registro Civil) era uma parda de 30 anos quando foi vítima do punhal do amasio, sendo inhumada a 29 de Janeiro de 1893 no cemiterio municipal, sepultura n. 3.903.

Do registro de obito a 30 desse mez pelo escrivão Jeronimo Gomes de Medeiros, consta: “Faleceu em consequencia de hemorragia devido a ferimentos profundos do pescoço, hontem das 2 para as 4 horas da manhã, nesta cidade”. Atestado medico: dr. Antonio Rodolpho Pereira de Lemos.

A vivissima atualidade de que gosa Maria Bueno dá impressão de ser de ontem o caso, entretanto são passados 46 anos e já se acham embaralhadas as versões. Alferes do 8º regimento de cavalaria, ao tempo, o sr. major Alcebiades Plaisant escreveu que o criminoso se chamava José Diniz, aspeçada desse corpo, a vitima era marafona e navalha a arma empregada. Escrivão do crime, o sr. Otavio Secundino informa: Maria Bueno lavadeira á rua Saldanha Marinho, assassinada a punhal pelo amasio, cabo Diniz da Silva, de profissão civil barbeiro. Deste pormenor talvez aquela substituição do punhal pela navalha. Fóra de duvida: a mancebia e o assassinio; a controversia nos detalhes não destrói a essencia da lenda.

Ao que se assegura, a fama de Maria Bueno nasceu com a descoberta do assassino, e que foi rara obra de sortilegio. Para logo a suspeita da autoria do crime recaíra no amante, mas o cafuz nordestino escudou-se em invulnerável alibi: praça do 8º regimento de cavalaria, José Diniz na noite criminosa estivera de guarda na caserna, sem faltar aos brados d’armas na rendição dos quartos. Nada mais convincente. Esmagador. Aconteceu, entretanto, que uns recrutas fachineiros lidando no poço, movida a roldana, içam o velho balde, cuja beirola largo uso rendilhara de bicos aos quaes se enroscara pequena trouxa. Admirados, abrem-na; envolvia ensaguentado punhal, uma gondóla azul-ferrete, ás costas certo numero em algarismos brancos. Era o numero do soldado. Confessou. Vestira a gondóla por sobre o uniforme; noite alta, saira sorrateiro ajustando contas de ciúmes com a amasia e voltara, tudo em acelerado. Graças a essa intervenção divina, foi condenado ao trintenio da pena máxima. O impressionante passe de taumaturgia restara incontrastavel, se outro (e este fóra da lenda) não viesse por sua vez beneficiaro réu: pouco depois, no ano seguinte, a cidade é tomada pelos Federalistas, que desaferrolham as portas da cadeia. E o assassino de Maria Bueno respira, impune, as auras da liberdade. Aliás por breve tempo: reincide logo no crime perpetrando um homicidio no Pilarzinho; a justiça revolucionaria, embora incoherente pois soltara a fera, foi pronta: Diniz, de joelhos junto ao portão do quartel, recebe a descarga mortal.

Para os fanáticos de Maria Bueno este desfecho não entra em linha de conta: o que vale é aquela liberdade com o escancarar das portas presidiarias, exatamente o primeiro milagre da nova santa, atendendo-se a que a desgraça, apesar-de-tudo, amava o bandido…

1939


Euclides Bandeira – Cronicas locaes. Tipografia da Escola de A. Artifices, Curitiba, 1941

Nenhum comentário:

Postar um comentário