Se
existe algo sobre o qual é difícil emitir um juízo de valor é a perspectiva
futura da cidade de Ponta Grossa, que hoje chega a seus 190 anos. O que dizer
objetivamente sobre uma cidade de quase 200 anos de idade que tem 335.000
habitantes enquanto cidades do mesmo Estado com pouco mais de 70 anos como
Londrina com sua região metropolitana já se aproximam de um milhão de habitantes?.
Sociólogos, historiadores, antropólogos, cientistas políticos e economistas se
debruçam tentando achar uma explicação científica para essa defasagem. Outro exemplo: a renda ‘per capita’ de Ponta
Grossa em 2010 era de 19.012 enquanto que a de Maringá no mesmo ano chegou a
23.140.
A
pergunta é: o que levou a ocorrer discrepâncias tão significativas?. Uma das
explicações mais convincentes aponta para o fato de que a infraestrutura
econômica (ou base material) que se instalou em Ponta Grossa determinou um
atraso na mudança social. Esta infraestrutura econômica incluiu: a) os meios de
produção, b) os objetos de trabalho (terras e matérias primas) e c) as relações
de produção (claramente de exploração capitalista), que atuaram em conjunto
dentro de um sistema escravagista e de servidão. Isto redundou no monopólio
privado da terra e na exploração da mão de obra gerando uma massa de miseráveis
no campo, que, finalmente, se deslocaram para as regiões empobrecidas e
periféricas da cidade. O sistema de Sesmarias (1704-1822) e os processos
latifundiários subsequentes (1823-1889) contribuíram enormemente para a
materialização daquela infraestrutura.
Por
seu lado, a consolidação ideológica e superestrutural desse processo ocorreu
mediante a ação facilitadora do próprio Estado oligárquico (e seus Aparelhos
Privados de Hegemonia) aliado a ideias conservadoras e patrimonialistas que
incluem o positivismo de Augusto Comte, o integralismo de Plínio Salgado, o
nazismo, o militarismo e, sobretudo, a clássica cultura política não
democrática.
Todo
este histórico processo – que inclui aspectos materiais e ideológicos - não se
observou em Londrina, em Maringá, em Cascavel e tampouco em Foz do Iguaçu.
Ponta Grossa atravessou, pois, numa viagem sui generis, um longo e tortuoso
caminho a partir do semi-feudalismo até o surgimento do capitalismo moderno. A
cidade de Ponta Grossa viveu 66 anos da sua história sob o penoso regime
monárquico; depois conviveu durante 95 anos (a partir de 1889 e até 1984) com
uma república de lógica liberal e práxis autoritária, na qual o povo foi
sistematicamente mantido à margem de qualquer possibilidade de participação.
Somente a partir de 1984 com a Campanha das Diretas, numa forma de Segunda
Proclamação da República, conheceu a democracia que permanece até hoje sem
rupturas.
O
que fazer para compensar este longo e demorado processo que ficou conhecido
como ‘modernização conservadora’?. Em primeiro lugar é preciso democratizar a
Sociedade Civil: depurar os fenômenos sociais e antropológicos tão atávicos
quanto adversos como o patrimonialismo, o utilitarismo e o conservadorismo. Em
segundo lugar, melhorar a política social e a política partidária. A política
social auferiu nos últimos 10 anos os positivos apoios federais sustentados nas
políticas públicas dos governos de Lula e Dilma. A política partidária
princesina, por seu lado, afastando-se da visão autoritária da política recebeu
a injeção de ânimo do pluralismo ideológico (leia-se vereadores do PT, do PC do
B, do PSB, etc) e da inovação política e ideológica representada principalmente
por Péricles (PT), os irmãos Sandro Alex e Marcelo Rangel (PPS) e Márcio
Pauliki (PDT). Além disso, a recente nomeação de um Secretário de Estado
princesino como o Doutor João Carlos Gomes veio mitigar um antigo defeito relacionado
às relações políticas da cidade.
Ainda
assim: o que mais pode ser feito para desenvolver o progresso da cidade?. A
resposta seria: apoiar o grande processo de incorporação de novas indústrias na
cidade como a norte-americana Paccar que pretende investir R$ 200 milhões e a
Companhia de Bebidas Ambev que ambiciona investir mais de R$ 250 milhões. Mais
ainda: o próprio Estado do Paraná parece aderir à ideia de impulsionar novos
tempos em Ponta Grossa. Aprovou a Lei de Inovação uma forma de diálogo – até
então inexistente - do público com o privado e de realizar a duplicação da BR
376, a ‘Rodovia do Café’, cujo trafego diário chega a 10 mil veículos.
Por
fim, de um passado oligárquico profundamente conservador, Ponta Grossa passa por
um positivo processo de desconstrução. Esta palavra, expressada por Jacques
Derrida, significa uma real transformação a partir de condições de atavismo.
Lutando contra os resquícios de uma estrutura social e econômica de tipo
verticalista que deixou como herança uma maiúscula desigualdade social, a
Sociedade Civil tenta se desvencilhar dos seus fantasmas e reinventar um novo
contrato social, de inspiração rousseauniana, que traga uma combinação de
democracia na área social e republicanismo na vida política.
O
autor é cientista político e autor do livro ‘Estado e Política: a história de Ponta Grossa, Pr.’, publicado em
2013.
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