Poetas de Ponta Grossa: uma interpretação (Parte II)
Fabio
Anibal Goiris
O jornal Diário dos Campos entrevistou em
comemoração ao ‘Dia Nacional da Poesia’ quatro poetas pontagrossenses – Amália Max, Sérgio Monteiro Zan, Kleber Bordinhão e Luis Fernando Cheres. A poetisa
Amália Max já foi citada no artigo anterior. O segundo entrevistado foi o
professor do curso de letras da Uepg Sérgio Monteiro Zan.
Herdeiro
do simbolismo, Zan, incorpora em sua obra poética alguns elementos como: pouca
ênfase no realismo e no naturalismo e grande ânimo aplicado em
temas místicos, imaginários e subjetivos. O poeta pontagrossense publicou em
2001 o livro de sonetos As horas
sonâmbulas, publicado pela
editora da Uepg. Na entrevista Zan afirma que é preciso que haja poetas. Não há civilização que
não os tenha, porquanto eles são sempre a voz maior, a interpretação suprema de
um povo e de uma cultura.
Na sua obra há nuanças da
corrente individualista (ou intimista), inclusive como herança de um simbolismo
sui generis como no trecho abaixo:
Signo que irrompe a espaços e imprevisto
Permeia a plúmbea contrição bendita
Da mente, ilhado claustro
em que persisto.
Mas,
como todo poeta, Sérgio Zan não esconde a vertigem de certo romantismo que não
abandona completamente seu trabalho, como pode ver-se no seguinte soneto:
Absorvo o fixo afago silencioso,
O sereno fulgir glauco e
amoroso
Desses olhos de outrora,
que me fitam.
A poesia de Sérgio Zan se alinha à erudição do
próprio autor. Poliglota e literato Zan não pretende simplificar seus versos,
antes incorpora um léxico por vezes complexo, mas, que denota a busca daquilo
que simplesmente pode chamar-se de intuição. Sérgio Zan é um ícone desta forma
de construir poemas que mistura mitos, ilusão e simbologia:
Por infindáveis, tétricos in-fólios,
O ultraje imemorial de
altos espólios,
Fraude ou verdade antiga,
sua e alheia,
Escoam-lhe na noite fria
e quieta,
Mortas, à sombra enorme
da ampulheta,
As
horas e as palavras com a areia...
O terceiro entrevistado pelo Diário dos Campos foi o jovem poeta
Kleber Bordinhão que certamente encontrou no bardo concretista Décio Pignatari
sua primeira inspiração. Aliás, a expressão
‘poesia concreta’, a rigor só surgiu em 1955, criada por Augusto de Campos e
compartida pelo seu irmão Haroldo. A obra de Kleber pode ser entendida como
pós-moderna não no sentido ideológico, mas, quanto à sua complexidade
discursiva que mistura poemas concretos, haicais e epopeias contemporâneas.
Outra inspiração de Kleber foi certamente o extraordinário
poeta paranaense Paulo Leminski que defendia no seu ‘Catatau’ a ideia
romanceada de que Descartes poderia ter vivido nos trópicos. Kleber Bordinhão afirma que entre seus poetas
preferidos estão Alice Ruiz (esposa de Leminski), Arnaldo Antunes, Luiz Antônio
Solda, além de Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira.
Em 2010 Kleber publicou o livro ‘Distancias do mínimo’
(mais recentemente publicou ‘Ano Neon’), onde pode ler-se um belo poema no qual o autor faz uma construção
de palavras e conceitos (do cotidiano) tendo como pano de fundo o próprio
tempo:
Ontem quis escrever
uma dor
mas
fosse hoje, já não podia
hoje,
virou alegria
e
quando tocar o papel
será
heresia
será
escândalo
será
poesia,
não
há dia que eu não tema
ficar
lembrando da vida
sem
viver um poema
Por fim, Kleber Bordinhão, vencedor
do Concurso Nacional de Poesia, da editora Taba Cultural, com o poema “Pecados
Essenciais”, envereda sua arte sob forte influencia da poesia concreta
brasileira, dos haicais leminskianos e certamente do urbanismo pós-moderno.
O
quarto e último poeta pontagrossense entrevistado pelo Diário dos Campos foi Luis Fernando Cheres. Formado em Letras e
Direito pela Uepg, Luiz Cheres incursiona numa forma de poesia ficcional que
utiliza elementos realistas intelectivos e os combina com valores do cotidiano,
tal como pode notar-se no ‘modelo’ ou arquétipo que o autor propõe para
‘construir’ um poeta. Especificamente para erigir as pernas do poeta o autor
recomenda:
Faça-as como as dos antílopes, das
pulgas,
das formigas. Teça-as com raízes de
árvores.
Poeta não precisa de pernas para
viajar.
E
eis aqui o segredo de sua criatura:
o poeta tem pernas nos olhos, tem
pernas na língua.
Tão fácil tecer um poeta.
Luis
Fernando Cheres afirma que teve influencias inicialmente dos poetas Manuel
Bandeira e Carlos Drummond de Andrade dos quais aprendeu a arte de ‘ler
poesia’. Depois vieram Fernando Pessoa e Manoel de Barros. Na prosa, Machado de
Assis, João Guimarães Rosa, Luis Vilela, Dalton Trevisan... Há ainda o grande
escritor paranaense Miguel Sanches Neto, autor muito próximo de Cheres, que se
destaca tanto na prosa quanto na poesia (como em Venho de um país obscuro, 2000).
O poeta Luis Cheres entende,
corretamente, que a linguagem da poesia atravessa uma crise. Para o autor a
poesia -e o poeta- recebe valorização apenas de ‘uma
pequena elite intelectual’. Isto não significa, porém, que a poesia seja uma
arte erudita. Ariano Suassuna, por exemplo, apresenta uma poesia comprometida
com a cultura popular. Além disso, diz Luis Cheres, a linguagem poética é muito
mais ‘difícil’ que as demais linguagens, ou seja, trata-se de uma linguagem (ou
discurso) com características próprias que acaba dificultando um pouco sua
compreensão’.
Finalmente, a homenagem aos quatro
poetas pontagrossenses representa um tributo aos muitos outros poetas da
cidade: experientes e jovens, homens e mulheres. Todos eles certamente procuram
transformar a arte poética num discurso não apenas aprazível, mas, inspirador,
democrático e popular.
O autor é cientista
político e professor da Uepg. Endereço: fgoiris@hotmail.com
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