domingo, 27 de abril de 2014

Poetas pontagrossenses: Fernando Cheres - 2ª Parte


Poetas de Ponta Grossa: uma interpretação (Parte II)

            Fabio Anibal Goiris

            O jornal Diário dos Campos entrevistou em comemoração ao ‘Dia Nacional da Poesia’ quatro poetas pontagrossenses  – Amália Max, Sérgio Monteiro Zan, Kleber Bordinhão e Luis Fernando Cheres. A poetisa Amália Max já foi citada no artigo anterior. O segundo entrevistado foi o professor do curso de letras da Uepg Sérgio Monteiro Zan.

            Herdeiro do simbolismo, Zan, incorpora em sua obra poética alguns elementos como: pouca ênfase no realismo e no naturalismo e grande ânimo aplicado em temas místicos, imaginários e subjetivos. O poeta pontagrossense publicou em 2001 o livro de sonetos As horas sonâmbulas, publicado pela editora da Uepg. Na entrevista Zan afirma que é preciso que haja poetas. Não há civilização que não os tenha, porquanto eles são sempre a voz maior, a interpretação suprema de um povo e de uma cultura.

                        Na sua obra há nuanças da corrente individualista (ou intimista), inclusive como herança de um simbolismo sui generis como no trecho abaixo:

                        Signo que irrompe a espaços e imprevisto

                        Permeia a plúmbea contrição bendita

                        Da mente, ilhado claustro em que persisto.

            Mas, como todo poeta, Sérgio Zan não esconde a vertigem de certo romantismo que não abandona completamente seu trabalho, como pode ver-se no seguinte soneto:

                        Absorvo o fixo afago silencioso,

                        O sereno fulgir glauco e amoroso

                        Desses olhos de outrora, que me fitam.

            A poesia de Sérgio Zan se alinha à erudição do próprio autor. Poliglota e literato Zan não pretende simplificar seus versos, antes incorpora um léxico por vezes complexo, mas, que denota a busca daquilo que simplesmente pode chamar-se de intuição. Sérgio Zan é um ícone desta forma de construir poemas que mistura mitos, ilusão e simbologia:

                        Por infindáveis, tétricos in-fólios,

                        O ultraje imemorial de altos espólios,

                        Fraude ou verdade antiga, sua e alheia,

                        Escoam-lhe na noite fria e quieta,

                        Mortas, à sombra enorme da ampulheta,

                        As horas e as palavras com a areia... 

            O terceiro entrevistado pelo Diário dos Campos foi o jovem poeta Kleber Bordinhão que certamente encontrou no bardo concretista Décio Pignatari sua primeira inspiração. Aliás, a expressão ‘poesia concreta’, a rigor só surgiu em 1955, criada por Augusto de Campos e compartida pelo seu irmão Haroldo. A obra de Kleber pode ser entendida como pós-moderna não no sentido ideológico, mas, quanto à sua complexidade discursiva que mistura poemas concretos, haicais e epopeias contemporâneas.

            Outra inspiração de Kleber foi certamente o extraordinário poeta paranaense Paulo Leminski que defendia no seu ‘Catatau’ a ideia romanceada de que Descartes poderia ter vivido nos trópicos.  Kleber Bordinhão afirma que entre seus poetas preferidos estão Alice Ruiz (esposa de Leminski), Arnaldo Antunes, Luiz Antônio Solda, além de Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira.

            Em 2010 Kleber publicou o livro ‘Distancias do mínimo’ (mais recentemente publicou ‘Ano Neon’), onde pode ler-se um belo poema no qual o autor faz uma construção de palavras e conceitos (do cotidiano) tendo como pano de fundo o próprio tempo:

            Ontem quis escrever uma dor

            mas fosse hoje, já não podia

            hoje, virou alegria

            e quando tocar o papel

            será heresia

            será escândalo

            será poesia,

            não há dia que eu não tema

            ficar lembrando da vida

            sem viver um poema

            Por fim, Kleber Bordinhão, vencedor do Concurso Nacional de Poesia, da editora Taba Cultural, com o poema “Pecados Essenciais”, envereda sua arte sob forte influencia da poesia concreta brasileira, dos haicais leminskianos e certamente do urbanismo pós-moderno.

            O quarto e último poeta pontagrossense entrevistado pelo Diário dos Campos foi Luis Fernando Cheres. Formado em Letras e Direito pela Uepg, Luiz Cheres incursiona numa forma de poesia ficcional que utiliza elementos realistas intelectivos e os combina com valores do cotidiano, tal como pode notar-se no ‘modelo’ ou arquétipo que o autor propõe para ‘construir’ um poeta. Especificamente para erigir as pernas do poeta o autor recomenda:

            Faça-as como as dos antílopes, das pulgas,

das formigas. Teça-as com raízes de árvores.

            Poeta não precisa de pernas para viajar.

            E eis aqui o segredo de sua criatura:

            o poeta tem pernas nos olhos, tem pernas na língua.

            Tão fácil tecer um poeta.

            Luis Fernando Cheres afirma que teve influencias inicialmente dos poetas Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade dos quais aprendeu a arte de ‘ler poesia’. Depois vieram Fernando Pessoa e Manoel de Barros. Na prosa, Machado de Assis, João Guimarães Rosa, Luis Vilela, Dalton Trevisan... Há ainda o grande escritor paranaense Miguel Sanches Neto, autor muito próximo de Cheres, que se destaca tanto na prosa quanto na poesia (como em Venho de um país obscuro, 2000).

            O poeta Luis Cheres entende, corretamente, que a linguagem da poesia atravessa uma crise. Para o autor a poesia -e o poeta- recebe valorização apenas de ‘uma pequena elite intelectual’. Isto não significa, porém, que a poesia seja uma arte erudita. Ariano Suassuna, por exemplo, apresenta uma poesia comprometida com a cultura popular. Além disso, diz Luis Cheres, a linguagem poética é muito mais ‘difícil’ que as demais linguagens, ou seja, trata-se de uma linguagem (ou discurso) com características próprias que acaba dificultando um pouco sua compreensão’.

            Finalmente, a homenagem aos quatro poetas pontagrossenses representa um tributo aos muitos outros poetas da cidade: experientes e jovens, homens e mulheres. Todos eles certamente procuram transformar a arte poética num discurso não apenas aprazível, mas, inspirador, democrático e popular.

 

                                                           O autor é cientista político e professor da Uepg. Endereço: fgoiris@hotmail.com

 

 

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