domingo, 27 de abril de 2014

Queima de livros em Ponta Grossa


            Queima de livros em Ponta Grossa

            Fabio Anibal Goiris

             Corria o ano de 1933 quando em várias cidades alemãs foram organizadas em praças as famosas queimas públicas de livros, com a presença da polícia, bombeiros e outras autoridades. O objetivo da cremação literária era destruir todo o material que fosse crítico ou se desviasse dos padrões impostos pelo regime nazista.  Era a Bücherverbrennung promovida pelo nazismo.  Obras de autores célebres como Thomas Mann,  Walter Benjamin, Bertold Brecht, Albert Einstein e Sigmund Freud foram reduzidas a cinzas. O poeta Heinrich Heine disse uma frase premonitória: "Onde se queimam livros, acaba-se queimando pessoas”.

            Antes mesmo, as primeiras escritas em tabletas de argila produzidas pelos sumérios já sofrearam processos de queima e destruição como resultado de ações de guerra. A mais célebre biblioteca da Antiguidade, na cidade egípcia de Alexandria, que albergou as obras de Euclides, Arquimedes, Platão e Galeno, também acabou destruída. O Mestre Jorge Luis Borges em sua obra ‘Outras inquisições’ relata também o caso do imperador chinês que ao mesmo tempo em que ordenou a edificação da gigantesca muralha mandou queimar todos os livros anteriores a ele.

            A verdade é que os livros são objetos tão importantes quanto frágeis. Suscetíveis mesmo a diversas ameaças sejam naturais – traças, inundações, incêndios – como também oriundas do descaso e da indiferença dos homens e ainda das mais destrutivas paixões como o fanatismo religioso e a censura ideológica. É isto que diz o ensaísta venezuelano Fernando Báez no seu livro ‘História Universal da Destruição dos Livros’ no qual trata do tema da aniquilação de bibliotecas ou ‘biblioclastia’ que o autor denomina também de ‘memoricídio’.

            O que estarão pensando Castro Alves, Machado de Assis, Euclides da Cunha, Lima Barreto, Graciliano Ramos, Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector entre tantos outros sobre o fato de uma biblioteca pública da cidade de Ponta Grossa estar prestes a incinerar mais de 20.000 livros. Pesa sobre estes livros a acusação de estarem contaminados por fungos perigosos à saúde, originados certamente em razão do descaso e da impassibilidade humanas. Não custa lembra que o período do prefeito Pedro Wosgrau filho que governou de 2005 a 2012 representou um tempo obscuro e pouco iluminado para a cultura da cidade.

             Por fim, o que diria o paranaense Paulo Leminski?. Em sua obra ‘Catatau’ Leminski louvava o poder da leitura e da cultura e indiretamente defendia as ideias modernistas de Oswald de Andrade (Manifesto Antropófago, 1928). Catatau satirizava o colonizador como também o espírito desagregador dos ‘doutos escolásticos’ transportados para terras selvagens. Leminski dizia que os livros podem ser queimados, mas não as ideias. Resta lembrar um provérbio de Paulo Leminski: “bolor não pega na pedra que vira”.

 

                                                                       O autor é cientista político e professor da Uepg. Endereço: fgoiris@hotmail.com

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