Queima de livros em Ponta Grossa
Fabio Anibal Goiris
Corria o ano de 1933 quando em
várias cidades alemãs foram organizadas em praças as famosas queimas públicas de
livros, com a presença da polícia, bombeiros e outras autoridades. O objetivo da cremação literária era destruir
todo o material que fosse crítico ou se desviasse dos padrões impostos
pelo regime nazista. Era a Bücherverbrennung promovida pelo nazismo. Obras
de autores célebres como Thomas Mann, Walter Benjamin, Bertold
Brecht, Albert Einstein e Sigmund Freud foram reduzidas a cinzas. O poeta
Heinrich Heine disse uma frase premonitória: "Onde se queimam livros,
acaba-se queimando pessoas”.
Antes
mesmo, as primeiras escritas em tabletas de argila
produzidas pelos sumérios já sofrearam processos de queima e destruição como
resultado de ações de guerra. A mais célebre biblioteca da Antiguidade, na
cidade egípcia de Alexandria, que albergou as obras de Euclides, Arquimedes,
Platão e Galeno, também acabou destruída. O Mestre Jorge Luis Borges em sua
obra ‘Outras inquisições’ relata também o caso do imperador chinês que ao mesmo
tempo em que ordenou a edificação da gigantesca muralha mandou queimar todos os
livros anteriores a ele.
A
verdade é que os livros são objetos tão importantes quanto frágeis. Suscetíveis mesmo a diversas ameaças sejam naturais – traças,
inundações, incêndios – como também oriundas do descaso e da indiferença dos
homens e ainda das mais destrutivas paixões como o fanatismo religioso e a
censura ideológica. É isto que diz o ensaísta venezuelano Fernando Báez no seu
livro ‘História Universal da
Destruição dos Livros’ no qual trata do tema da aniquilação de
bibliotecas ou ‘biblioclastia’ que o autor denomina também de ‘memoricídio’.
O
que estarão pensando Castro Alves, Machado de Assis, Euclides
da Cunha, Lima Barreto, Graciliano Ramos, Cecília Meireles, Carlos Drummond de
Andrade, Clarice Lispector entre tantos outros sobre o fato de uma biblioteca
pública da cidade de Ponta Grossa estar prestes a incinerar mais de 20.000
livros. Pesa sobre estes livros a acusação de estarem contaminados por fungos
perigosos à saúde, originados certamente em razão do descaso
e da impassibilidade humanas. Não custa lembra que o período do prefeito
Pedro Wosgrau filho que governou de 2005 a 2012 representou um tempo obscuro e
pouco iluminado para a cultura da cidade.
Por fim, o que diria o paranaense
Paulo Leminski?. Em sua obra ‘Catatau’ Leminski louvava o poder da leitura e da
cultura e indiretamente defendia as ideias modernistas de Oswald de Andrade (Manifesto Antropófago, 1928).
Catatau satirizava o colonizador como também o espírito desagregador dos ‘doutos
escolásticos’ transportados para terras selvagens. Leminski dizia que os livros
podem ser queimados, mas não as ideias. Resta lembrar um
provérbio de Paulo Leminski: “bolor não pega na pedra que vira”.
O
autor é cientista político e professor da Uepg. Endereço: fgoiris@hotmail.com
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