Poetas
de Ponta Grossa: uma interpretação (Parte I)
Fabio
Anibal Goiris
O jornal Diário dos Campos estampou na sua capa
do dia domingo 16 de março uma justa e bela homenagem a todos os poetas da
cidade. Entrevistando quatro poetas pontagrossenses de diferentes estilos e tendências – Amália Max,
Sérgio Monteiro Zan, Kleber Bordinhão e Luis Fernando Cheres – o jornal prestou sua homenagem ao ‘Dia Nacional
da Poesia’, que se comemora a cada 14 de março.
Do ponto de vista das Ciências
Sociais e Políticas a poesia é uma das expressões artísticas mais populares,
embora sujeita também a interpretações ideológicas. A poesia desconhece classes
sociais (pode nascer em qualquer contexto), fazendo parte, sobretudo, da
cultura popular. Permeada por seu lirismo característico, arrebata leitores de
todos os níveis e penetra em diferentes contextos sociais e econômicos. Mesmo
temas reais e pragmáticos, como as guerras e revoluções, podem originar um
poema e comover pessoas.
O Brasil é prodigo em poetas. Castro Alves, por
exemplo, que nasceu em 1847 na Bahia, talvez tenha sido o mais brilhante e
genuíno representante do romantismo que, em alguns poemas, incorpora uma
preocupação social. Em ‘O navio negreiro’, por exemplo, Castro Alves descreve
assim este quadro social:
São os filhos do deserto, onde a terra esposa a luz.
São
os guerreiros ousados que com os tigres mosqueados combatem na solidão.
Ontem
simples, fortes, bravos. Hoje míseros escravos. Sem luz, sem ar, sem razão...
Não é por acaso que Carlos Drummond
de Andrade no seu poema ‘De mãos dadas’ escreve sobre
o valor da poesia, na forma de um signo, que combina o conceito (significado) e
a imagem acústica (significante), como um paradigma do presente:
Não
serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.
Assim,
os poetas da cidade de Ponta Grossa cantaram (e cantam) o presente e certamente
apontam para o futuro. Por exemplo, Anita Philipovsky (1886-1976), poetisa
pontagrossense deixou em ‘Os poentes da minha terra’, uma das mais belas expresão
liricas dedicadas à cidade:
Os poentes da minha terra
São belos,
Tão belos,
Mas tão belos
Como nunca ninguém viu fora daqui.
Uns são roxos... outros amarelos...
Outros de bronze com pedrinhas de
rubi...
A poetisa Amália Max, descendente de imigrantes do Volga,
nasceu em Ponta Grossa em 1929 e fez emergir sua obra na condição de trova
(integrou a obra
Antologia de Trovadores no Paraná, publicado em 1984). Aliás, a antiga trova era cantada pelo trovador ou vate (isto é
válido também para a cultura espanhola) e hoje é composta geralmente de um poema
de quatro versos. Amália Max ganhou centenas de prêmios em concursos de trovas
chamados de ‘Jogos florais’. Na Antiguidade
Clássica as competições literárias eram feitas em homenagem à deusa Flora: os
vencedores ganhavam pedras preciosas com formato de flores. A obra de Amália Max, segundo a própria autora, é permeada pela saudade, um dos temas
mais presentes nas suas trovas. Assim, sob o impacto do
realismo, mas, com elementos marcantes do romantismo a autora descreveu em
verso o arco-íris:
O arco-íris tão bonito
e
de tão finos arranjos
é
só o varal do infinito
secando
a roupa dos anjos!
Amália Max mostra sua
sensibilidade e feminilidade num poema que demonstra todo seu talento para
descrever o seu tema favorito, a saudade:
Meus olhos azuis se embaçam,
acabando
por chorar,
quando
meus braços se abraçam
por
não ter quem abraçar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário